Agência FAPESP – Uma bactéria que pode bloquear a duplicação do vírus da dengue em mosquitos é o destaque de estudo feito por cientistas da Universidade do Estado de Michigan, nos Estados Unidos.

O trabalho reforça outro feito paralelamente e publicado em dezembro de 2009 na revista Cell, de autoria de pesquisadores do Brasil e da Austrália, que também ressaltou o potencial da bactéria. Os estudos poderão ajudar no desenvolvimento de tratamentos contra a dengue, doença que ameaça cerca de 2,5 bilhões de pessoas em todo o mundo e para o qual atualmente não existe vacina.

“Na natureza, cerca de 28% das espécies de mosquitos são hospedeiros da bactéria Wolbachia, mas esse não é o caso do mosquito transmissor da dengue, o Aedes aegypti. Verificamos que a Wolbachia é capaz de parar a duplicação do vírus da dengue e, se não houver vírus no mosquito, ele não se espalhará para as pessoas. Ou seja, a transmissão da doença poderia ser bloqueada”, disse Zhiyong Xi, um dos autores do estudo.

O estudo foi publicado na edição de abril da revista PLoS Pathogens. Xi e colegas introduziram a bactéria em mosquitos Aedes aegypti por meio da injeção do parasita em embriões.

Os pesquisadores mantiveram a Wolbachia em insetos no laboratório por quase seis anos, com a bactéria sendo transmitida de uma geração a outra.

Quando um macho com a bactéria cruza com uma fêmea não infectada, a Wolbachia promove uma anormalidade reprodutiva que leva à morte precoce de embriões.

Mas a Wolbachia não afeta o desenvolvimento embrionário quando tanto o macho como a fêmea estão infectados, de modo que a bactéria pode se espalhar rapidamente, infectando uma população inteira de mosquitos. A bactéria não é transmitida dos mosquitos para humanos.

Xi comentou a diferença com o estudo anterior, feito na Austrália e no Brasil. “A linhagem que usamos tem uma taxa de transmissão maternal de 100% e faz com que os mosquitos vivam mais. No outro trabalho , a linhagem usada faz com que os mosquitos morram cedo”, disse.

“Os dois métodos têm suas vantagens. Quanto mais o mosquito viver, mais chances ele terá de passar a infecção para seus descendentes e de atingir uma população inteira de mosquitos em um determinado período. Mas se o mosquito viver menos, ele não picará as pessoas e não transmitirá o vírus da dengue. Os dois exemplos demonstram o potencial do uso da bactéria para controle da transmissão”, explicou.

Os dois estudos reforçam a preocupação de cientistas de diversos países com o problema. Uma pesquisa publicada em fevereiro pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences apresentou um possível método para controle da transmissão por meio da obtenção de fêmeas do Aedes aegypti que são incapazes de voar.

  • The Endosymbiotic Bacterium Wolbachia Induces Resistance to Dengue Virus in Aedes aegypti (DOI:10.1371/journal.ppat.1000833), de Zhiyong Xi e outros, pode ser lido em www.plospathogens.org
  • A Wolbachia Symbiont in Aedes aegypti Limits Infection with Dengue, Chikungunya, and Plasmodium (DOI 10.1016/j.cell.2009.11.042), de Luciano A. Moreira e outros, pode ser lido em www.cell.com

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