Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve contabilizar 781 mil novos casos de câncer anualmente até 2028. Excluindo os tipos de pele não melanoma, essa cifra se aproxima de 518 mil diagnósticos.
O câncer peritoneal, relacionado a casos como os da apresentadora Hebe Camargo e Dudu Braga, filho do cantor Roberto Carlos, é um tipo raro que afeta o peritônio, a grande membrana na cavidade abdominal. De acordo com o Dr. Arnaldo Urbano Ruiz, especialista em cirurgia oncológica, até os anos 80, esse câncer era considerado uma sentença fatal.
Com os avanços do Dr. Sugarbaker nos anos 90, as neoplasias peritoneais passaram a ser vistas como doenças tratáveis localmente, ao invés de doenças metastáticas incuráveis. Com a aplicação de técnicas cirúrgicas e de citorredução, muitos pacientes têm obtido longas sobrevidas e, em alguns casos, cura total.
Hoje, o manejo do paciente com carcinomatose peritoneal requer um tratamento personalizado, que pode incluir cirurgia, quimioterapia sistêmica, imunoterapia e técnicas como a quimioterapia aquecida (HIPEC) ou Pipac (quimioterapia aerosolizada). “A avaliação deve ser realizada por um cirurgião especializado e um oncologista clínico em centros com experiência na condição, já que nem todos os casos são candidatos à cirurgia”, ressalta o Dr. Ruiz.
Segundo o especialista, não há exames preventivos para detectar precocemente este tipo de câncer. Os sintomas podem variar de desconforto abdominal, hérnias, alterações intestinais, até distensão e dor abdominal.
“Frequentemente, os pacientes chegam ao diagnóstico quando já há disseminação peritoneal. Durante a avaliação, atribuímos um índice de carcinomatose peritoneal, que varia de 0 (sem carcinomatose) a 39 (máximo)”, explica.
Os casos mais comuns que necessitam de intervenção cirúrgica incluem alguns subtipos de mesoteliomas primários, carcinomas peritoneais—mais comuns em mulheres—e tumores internos que metastatizam para o peritônio, como ovários e cólon. Também há disseminação peritoneal de tumores não primários, como os de mama e pulmão.
Entretanto, nem todos os pacientes com carcinomatose podem se submeter a cirurgia. O Dr. Arnaldo enfatiza que é crucial que o paciente esteja em um centro especializado, onde cirurgiões experientes possuem uma equipe qualificada. “Infelizmente, por ser uma condição rara, há poucos profissionais com expertise. Em centros com alta demanda, os cirurgiões tornam-se mais habilidosos em selecionar os pacientes adequados para a citorredução, levando em conta o estado geral do paciente e a elegibilidade da doença para intervenção”, esclarece.
Por fim, o Dr. Ruiz destaca que, no Brasil, a falta de uma política pública voltada para o tratamento do câncer peritoneal dificulta o acesso. Não há código específico no SUS, e raros centros realizam cirurgias associadas à HIPEC. O custo da operação não é coberto na totalidade pelo SUS, e mesmo na medicina privada, a escassez de centros especializados é um desafio. Portanto, se um plano de saúde não autorizar o tratamento, procurar orientação jurídica pode ser necessário. O manejo da carcinomatose peritoneal exige profissionais altamente capacitados, similares aos que realizam transplantes de órgãos.
Sobre o Dr. Arnaldo Urbano Ruiz
O Dr. Arnaldo Urbano Ruiz é cirurgião geral e oncológico, coordenador do Centro de Doenças Peritoneais no Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, com foco em neoplasias peritoneais e cirurgia citorredutora.
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