A realidade brutal sobre ser homem, masculinidade e identidade caminham lado a lado na vida de muitos homens. Desde cedo, muitos aprendem que seu valor está diretamente ligado à capacidade de produzir, sustentar, resolver problemas e suportar qualquer tipo de dificuldade. Mas o que acontece quando o emprego acaba, um projeto fracassa ou simplesmente chega o momento de descansar?

Essa é a reflexão apresentada pelo comunicador e profissional da saúde Léo, que compartilhou sua própria história para discutir como muitos homens acabam confundindo responsabilidade com identidade. Em vez de apresentar fórmulas prontas, ele propõe uma conversa honesta sobre medo, vulnerabilidade e o peso das expectativas sociais.
Índice
“Muitos homens acreditam que precisam merecer o direito de existir.”
Segundo ele, a cobrança começa muito antes da vida adulta. Ela aparece nas expectativas familiares, na educação e na forma como os meninos aprendem a ocupar seu espaço na sociedade.
Aos poucos, muitos passam a acreditar que ser homem significa resolver tudo, suportar tudo e nunca demonstrar fragilidade.
O problema surge quando essa responsabilidade deixa de ser apenas um papel e passa a definir quem a pessoa acredita ser.
Masculinidade e identidade além do trabalho
Para o comunicador, existe uma diferença importante entre exercer responsabilidades e fazer delas o fundamento da própria identidade.
Quando um homem passa a medir seu valor apenas pelos resultados que entrega, qualquer dificuldade profissional deixa de ser apenas um problema financeiro e passa a ser percebida como uma derrota pessoal.
É por isso que o desemprego, por exemplo, costuma atingir muito mais do que o orçamento.
“O desemprego machuca muito mais do que o bolso. Muitas vezes ele machuca a identidade.”
Segundo ele, muitas pessoas passam a acreditar que decepcionaram a própria família simplesmente porque atravessam uma fase difícil profissionalmente.
Essa lógica também interfere na forma como muitos homens enxergam os relacionamentos.
Em vez de acreditarem que podem ser amados pelo que são, acabam buscando admiração pelo que conseguem conquistar.
“Existe uma diferença entre ser reconhecido pelo que você faz e ser amado por quem você é.”
A ausência do pai e a construção da própria identidade
Durante o relato, Léo compartilha parte da própria infância.
Ele conta que perdeu a mãe ainda muito pequeno e que o pai acabou se afastando emocionalmente após enfrentar problemas pessoais.

Segundo ele, uma criança não consegue compreender todas as razões que levam um adulto a se ausentar.
Ela apenas sente a ausência.
“Uma criança não entende as razões da ausência. Ela apenas sente que alguém importante não está ali.”
Crescendo no Complexo de Manguinhos, no Rio de Janeiro, ele afirma que encontrou na música uma forma de se aproximar da figura paterna que não teve presente.
Mais tarde, através do rap e da leitura da realidade ao seu redor, começou a compreender questões ligadas à identidade, consciência racial e desigualdade social.
O peso que homens negros carregam
Durante a conversa, ele faz um recorte específico sobre a realidade de homens negros.
Segundo o comunicador, além das cobranças comuns da vida adulta, muitos ainda convivem diariamente com a necessidade constante de provar competência, justificar sua presença em determinados espaços e lidar com julgamentos baseados na aparência ou na origem.
Ele ressalta que isso não significa negar as dificuldades vividas por outros homens, mas reconhecer que existem experiências diferentes dependendo do contexto social e racial.
“Ser forte é uma qualidade. Viver obrigado a ser forte o tempo inteiro é uma prisão.”
Para ele, quando a força nasce apenas da necessidade de sobrevivência, ela cobra um preço ao longo dos anos.
Descansar também é necessário
Outro ponto abordado é a culpa que muitos homens sentem ao descansar.
Segundo Léo, parar para brincar com os filhos, assistir a um filme ou simplesmente não produzir durante algumas horas costuma gerar desconforto.
Isso acontece porque muitos associam descanso à improdutividade.
No entanto, ele afirma que relacionamentos, presença familiar e saúde emocional não crescem sob pressão constante.
“Nem todo avanço exige velocidade.”
O comunicador também chama atenção para o desgaste emocional acumulado ao longo dos anos.
Segundo ele, muitos homens interpretam o próprio cansaço como fraqueza e continuam ignorando sinais físicos e emocionais até chegarem ao limite.
Coragem não significa ausência de medo
Ao relembrar sua decisão de deixar um emprego estável para empreender na internet, Léo afirma que nunca tomou decisões importantes sem medo.
Pelo contrário.
Segundo ele, a coragem apareceu justamente porque o medo existia.
“A coragem não nasce da ausência do medo. Ela nasce apesar dele.”
Na avaliação do comunicador, existe uma narrativa muito difundida de que pessoas confiantes nunca sentem insegurança.
Na prática, afirma, a maioria apenas aprende a continuar caminhando mesmo sem garantias.
O valor de um homem não pode depender apenas da produtividade
Ao longo da reflexão, uma pergunta aparece repetidamente:
“Quem continuamos sendo quando não estamos tentando provar nada para ninguém?”
Segundo Léo, essa talvez seja uma das questões mais importantes da vida adulta.
Ele acredita que trabalho, dinheiro e responsabilidades continuarão fazendo parte da vida de qualquer pessoa, mas não podem ser a única base sobre a qual alguém constrói sua identidade.
No encerramento, ele reforça que não apresenta respostas definitivas nem soluções prontas.
Seu objetivo é abrir espaço para uma conversa mais honesta sobre masculinidade, saúde emocional, medo e vulnerabilidade.
“Somos homens inseguros, vulneráveis. E isso não nos faz menos homens.”
A reflexão termina com um convite simples, mas profundo: cuidar da saúde, da família e de si mesmo, compreendendo que o valor de uma pessoa vai muito além daquilo que ela consegue produzir.
“A vida não exige que a gente controle tudo. Ela exige apenas que a gente caminhe com honestidade.”
FAQ – PERGUNTAS FREQUENTES
Por que muitos homens associam seu valor ao trabalho?
Porque muitos são educados desde cedo a acreditar que seu papel principal é produzir, sustentar e resolver problemas, fazendo da produtividade parte da própria identidade.
Qual a diferença entre responsabilidade e identidade?
Responsabilidade diz respeito às funções e compromissos assumidos. Identidade é quem a pessoa é. Confundir as duas faz com que dificuldades profissionais sejam vividas como fracassos pessoais.
Descansar significa falta de compromisso?
Não. A reflexão apresentada destaca que descanso é uma necessidade humana e faz parte do equilíbrio emocional, dos relacionamentos e da saúde, não sendo um sinal de fraqueza.
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Por Carlos Teixeira
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