Há números que impressionam. E há números que, justamente por impressionarem, escondem a pergunta mais importante.
58,4 mil pessoas disputando 2,5 mil vagas na Unicamp parece, à primeira vista, um retrato de sucesso absoluto. Afinal, estamos falando de uma das universidades mais importantes do país e de uma concorrência que continua brutal para quem sonha com uma vaga.
Mas existe um detalhe nessa história que merece atenção: é o menor número de inscritos no vestibular da Unicamp em dez anos.
E talvez seja justamente aí que esteja a notícia.
Não porque 58 mil candidatos sejam poucos — obviamente não são. A questão é outra: por que uma universidade que continua sendo referência nacional está vendo diminuir, ano após ano, o número de estudantes que escolhem justamente o seu vestibular tradicional?
A resposta mais fácil está pronta: existem outras portas de entrada.
Enem-Unicamp, Provão Paulista e outras modalidades passaram a dividir com o vestibular tradicional a tarefa de selecionar os futuros alunos. Portanto, parte dessa queda pode simplesmente significar que o estudante continua querendo a Unicamp, mas não necessariamente quer chegar até ela pela mesma porta.
Faz sentido.
Mas seria confortável demais encerrar a discussão aí.
O vestibular já não é mais o que era
Durante décadas, o vestibular foi quase um ritual de passagem.
O estudante passava anos ouvindo que precisava estudar para o vestibular. Cursinho, apostilas, simulados, redação, lista de exercícios, ansiedade e, finalmente, o grande dia.
Hoje, o cenário é diferente.
O jovem tem diante de si uma verdadeira prateleira de possibilidades. Pode fazer o Enem, disputar o Sisu, tentar uma universidade privada, concorrer a bolsas, utilizar diferentes processos seletivos e, em alguns casos, escolher modalidades específicas criadas pelas próprias universidades públicas.
O vestibular tradicional deixou de ser o centro absoluto desse universo.
E talvez a Unicamp esteja apenas sentindo uma transformação que é muito maior do que ela.
Mas existe uma pergunta incômoda
Se a queda ocorre porque os estudantes estão migrando para outras modalidades de ingresso da própria Unicamp, ótimo: o problema praticamente muda de endereço.
Mas e se parte desses jovens estiver simplesmente escolhendo outra instituição?
Ou outro curso?
Ou, ainda mais preocupante, se estiver desistindo da universidade?
Essa é uma pergunta que os números do vestibular, sozinhos, não conseguem responder.
E é justamente por isso que não devemos olhar para os 58,4 mil inscritos apenas como uma estatística.
Por trás de cada inscrição existe um jovem que decidiu ou não decidiu, que aquela universidade fazia parte do seu projeto de vida.
A universidade ainda é desejada
É importante não exagerar o diagnóstico.
A Unicamp continua sendo uma instituição extremamente procurada. Medicina continua atraindo uma multidão de candidatos. Ciência da Computação, Arquitetura e outros cursos também mantêm uma procura expressiva.
Portanto, seria precipitado transformar a queda das inscrições em uma espécie de “crise de prestígio” da universidade.
Não é isso que os números dizem.
Mas eles dizem alguma coisa.
E talvez a coisa mais interessante seja que o candidato mudou antes que as instituições percebessem completamente a mudança.
O jovem de hoje tem outras expectativas, outras formas de estudar, outras possibilidades de carreira e, principalmente, outras maneiras de chegar ao ensino superior.
A conta que realmente importa
Há uma ironia interessante nessa história.
A Unicamp pode comemorar que ainda possui dezenas de milhares de candidatos para poucas milhares de vagas. E deve mesmo reconhecer a força dessa demanda.
Mas uma universidade pública não deveria olhar apenas para o tamanho da fila.
Deveria olhar para quem está na fila e por que está ali.
De onde vêm esses estudantes?
Quantos são de escolas públicas?
Quantos pretendem efetivamente seguir carreira acadêmica?
Quantos estão escolhendo a Unicamp como primeira opção?
Quantos estão utilizando outras modalidades de ingresso?
Quantos candidatos que antes prestariam o vestibular simplesmente deixaram de considerar a universidade?
Essas respostas dizem muito mais sobre o futuro da instituição do que a quantidade bruta de inscrições.
Talvez não seja uma queda. Talvez seja uma mudança de caminho
É possível que estejamos olhando para o problema errado.
Talvez não estejamos diante de uma Unicamp menos desejada.
Talvez estejamos diante de uma Unicamp que está sendo procurada de outra maneira.
O vestibular tradicional pode estar deixando de ser o principal termômetro da popularidade da universidade justamente porque deixou de ser a única porta de entrada.
Isso não torna o número menos importante.
Pelo contrário.
Quando uma tradição de décadas começa a perder participantes, ainda que existam explicações perfeitamente razoáveis, vale a pena parar e perguntar o que está acontecendo.
Porque grandes instituições não desaparecem de uma hora para outra.
Elas primeiro percebem pequenas mudanças.
Uma queda aqui.
Uma mudança de comportamento ali.
Um novo caminho escolhido pelos estudantes.
Até que, alguns anos depois, alguém olha para trás e percebe que o mundo mudou.
58,4 mil candidatos ainda é um número gigantesco.
Mas talvez a notícia não esteja nos 58 mil.
Talvez esteja nos milhares que não estão mais chegando pela mesma porta.
E entender para onde eles estão indo pode ser uma das perguntas mais importantes que a Unicamp terá de responder nos próximos anos.
por Uberdan Agnelo
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