A cada nova pesquisa sobre o comportamento da Geração Z surge um diagnóstico diferente e, no geral, acredita‑se que esses jovens estão mudando o mundo. Não querem empregos para a vida toda, rejeitam carreiras lineares, valorizam experiências acima de patrimônio e, agora, também parecem ter perdido o interesse pelos carros. Desde Henri Ford, no início do século XX, possuir um automóvel simboliza status social. Mas será que essa mudança representa uma nova visão de mundo ou apenas o reflexo de uma realidade confortável para uma parcela privilegiada da população?
Um estudo do Trânsito Dinâmico mostra que jovens das gerações Y e Z têm menos interesse em tirar carteira de motorista e adquirir um veículo próprio. Os motivos são compreensíveis: custo elevado de aquisição, combustível, manutenção, seguro e impostos. Diante dessa conta, muitos preferem investir em viagens, gastronomia, festivais, tecnologia e outras experiências de prazer imediato.
A conclusão parece simples: os jovens não sonham mais com carros. Porém, o Brasil real é mais complexo do que os relatórios de tendências sugerem. O país está longe de se resumir aos bairros centrais das grandes capitais, atendidos por transporte público eficiente e por aplicativos que funcionam 24 horas por dia. Milhões de brasileiros vivem em cidades sem transporte público eficiente, em periferias onde o deslocamento diário é uma batalha, ou em municípios pequenos onde ter um carro não é status, é sobrevivência.
Nesses lugares, o carro continua sendo sinônimo de liberdade. É ele que permite trabalhar, estudar, buscar atendimento médico ou acessar oportunidades que não existem a poucos metros de casa. Quem depende de um transporte coletivo precário sabe que autonomia, muitas vezes, tem quatro rodas.
Por isso, chama atenção o discurso de jovens que afirmam não desejar um carro. Em muitos casos, essa decisão vem acompanhada de condições raramente mencionadas: acesso a veículos da família, recursos para usar aplicativos ou vivem em áreas urbanas privilegiadas. Em outras palavras, abrir mão de um carro é mais fácil quando alguém já garante sua mobilidade.
Existe uma diferença importante entre não precisar de um carro e não querer um carro. A primeira situação é fruto das condições oferecidas pelo ambiente. A segunda seria uma escolha genuína. Nem sempre os debates públicos conseguem distinguir uma da outra.
Mais do que um bem material, o carro representa algo que incomoda uma geração frequentemente associada à busca por flexibilidade: compromisso. Ter um veículo significa assumir custos permanentes, planejar gastos futuros, lidar com manutenção, impostos e responsabilidades. É um compromisso de longo prazo, exatamente o tipo de vínculo que muitos jovens afirmam evitar em outras áreas da vida, como trabalho, relacionamentos e patrimônio.
É claro que ninguém deve comprar um carro apenas para provar maturidade. Contudo, também é ingênuo transformar a rejeição ao automóvel em símbolo automático de evolução social. Em muitos casos, o discurso contra a posse de veículos parece menos uma revolução cultural e mais um privilégio de quem pode terceirizar a própria mobilidade.
Talvez a pergunta correta não seja por que os jovens não querem carros. A pergunta é outra: eles realmente não querem carros ou simplesmente nunca precisaram assumir a responsabilidade que um carro representa?
Porque, gostemos ou não, assumir um veículo ainda é, para milhões de brasileiros, assumir as rédeas da própria vida. É decidir para onde ir, quando ir e como chegar. É um símbolo concreto de autonomia. E autonomia, diferentemente das experiências passageiras, exige responsabilidade.
*Aline Mara Gumz Eberspacher é Doutora em Sociologia pela Université Paul Valéry (Montpellier III – França) e Coordenadora dos cursos de Pós-graduação do Centro Universitário Internacional Uninter.
Para mais notícias, eventos e empregos, siga-nos no Google News (clique aqui) e fique informado
Lei Proibida a reprodução total ou parcial, sem autorização previa do Portal Hortolandia . Lei nº 9610/98










