Campinas abre Semana Municipal da Alimentação focada no combate ao desperdício
A Prefeitura de Campinas abriu na manhã de 13 de outubro a VIII Semana Municipal da Alimentação, dedicada neste ano ao combate ao desperdício de alimentos. No auditório da Ceasa Campinas, o engenheiro agrônomo Emiliano Graziano, cofundador e diretor do Instituto Fome Zero, apresentou dados indicando que quase 20% dos alimentos disponíveis para consumidores no mundo são descartados em estabelecimentos comerciais, restaurantes e residências. Ele alertou que embora reduzir o desperdício seja importante, a fome tem raiz na falta de renda para adquirir alimentos de qualidade.
Sistemas Alimentares e combate ao desperdício em debate
O evento, organizado pelo Departamento de Segurança Alimentar e Nutricional da Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social de Campinas, focou no tema “Sistemas Alimentares: impacto do combate ao desperdício de alimentos”. O conceito de sistema alimentar envolve todo o ciclo dos alimentos, da produção ao consumo e descarte. O encontro marcou o Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, e contou com o apoio da Ceasa Campinas e de quatro universidades locais, reunindo especialistas também de Hortolândia, Limeira, Sorocaba, Paulínia e Mogi Mirim.
A secretária de Desenvolvimento e Assistência Social, Vandecleya Moro, destacou a importância de reconhecer a fome como um problema real, comparando a postura da sociedade à dos passageiros do Titanic diante do naufrágio. Ela ressaltou a situação paradoxal da cidade, que mesmo rica convive com a insegurança alimentar, definindo o termo como “nome bonito para a fome” e reforçando a necessidade de uma responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e poder público para erradicar a fome no Brasil.
Perdas e desperdícios no sistema alimentar
Durante a palestra “A importância do combate ao desperdício nos Sistemas Alimentares”, Graziano diferenciou perda e desperdício: perdas ocorrem entre a colheita e a chegada ao varejo; desperdício ocorre no fim da cadeia, em supermercados, restaurantes e residências. Dados da FAO e Pnuma mostram que 13% dos alimentos se perdem antes do varejo e 19% são desperdiçados pelos consumidores, totalizando mais de 1 bilhão de toneladas descartadas em 2022, com residências respondendo por 60% desse volume.
Apesar do impacto do desperdício doméstico, Graziano reforçou que a insegurança alimentar tem origem anterior, na falta de acesso e renda. Ele destacou situações urbanas como desertos alimentares, em que alimentos frescos são pouco acessíveis, e pântanos alimentares, com oferta maior de opções pouco nutritivas.
Desperdício patrocinado e desafios na produção
Claudinei Barbosa, diretor técnico-operacional da Ceasa Campinas, apontou que entre 15% e 20% da produção nem sai das propriedades rurais por causa de critérios como calibre dos alimentos, que são julgados pela aparência apesar de seu valor nutricional ser o mesmo. Ele criticou esse desperdício motivado por marketing e influências no consumo, ressaltando que isso gera prejuízos aos produtores, que não contabilizam os alimentos descartados.
Barbosa destacou que a segurança alimentar é responsabilidade de toda a população e que comer não necessariamente significa se alimentar bem, enfatizando a importância da qualidade nutricional.
Estratégias para minimizar o desperdício
Graziano apresentou prioridades para enfrentar o problema, começando pela redução de excedentes, redirecionamento para consumo via bancos de alimentos, destinação para alimentação animal e transformação em composto orgânico ou energia, deixando para aterro sanitário apenas o que não seja aproveitável. Ele também chamou atenção ao impacto ambiental da perda de alimentos, que corresponde de 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa.
O Banco Municipal de Alimentos de Campinas, instalado na Ceasa desde 2003, é referência na recolha e redistribuição de alimentos, abastecendo cerca de 120 instituições. Ali também atua o Instituto de Solidariedade para Programas de Alimentação (ISA), que recolhe doações diárias de frutas, legumes e verduras.
Além do trabalho de coleta, Graziano ressaltou a importância dos bancos de alimentos como centros de inteligência para otimizar a distribuição entre entidades, apoiar educação alimentar e articular a integração com produtores e feiras.
Propostas e ações locais para o combate ao desperdício
O palestrante sugeriu cinco eixos para Campinas: diagnóstico das perdas, prevenção com metas para setores diversos, recuperação da logística e infraestrutura do Banco de Alimentos e ISA, redistribuição integrada com assistência social e reciclagem via compostagem. Ele defendeu a integração das áreas de alimentação, produção e proteção social para resultados efetivos.
Campinas conta com um Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional para 2026 a 2029, coordenado pela Câmara Intersecretarial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan) e acompanhado pelo Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (Comsea).
A programação seguiu com mesa-redonda sobre a atuação de bancos de alimentos e visita ao Banco Municipal de Alimentos e ISA. A Semana prossegue com capacitação sobre Educação Alimentar e Nutricional para promover hábitos saudáveis, finalizando no Dia Mundial da Alimentação, em 16 de outubro.
Perguntas frequentes
Qual o objetivo da Semana Municipal da Alimentação em Campinas?
O evento visa debater e promover ações para o combate ao desperdício de alimentos e a segurança alimentar, envolvendo autoridades, especialistas e a comunidade.
O que diferencia perda de desperdício de alimentos?
Perda ocorre entre colheita e varejo, causada por fatores logísticos; desperdício ocorre no fim da cadeia, em residências, comércios e serviços alimentares.
Qual a importância do Banco Municipal de Alimentos de Campinas?
Ele recolhe alimentos próprios para consumo que seriam descartados e os distribui para instituições, atuando também na educação alimentar e na articulação regional.
Como a fome está relacionada ao desperdício de alimentos?
A fome tem origem principalmente na falta de renda para adquirir alimentos adequados, e não apenas no desperdício doméstico, que representa uma parte do problema.
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