Tilápia no centro, a discussão sobre espécies exóticas invasoras ganha força nesta segunda-feira (25) em Caçador (SC), com a realização de um seminário promovido pela Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados. O evento acontece às 14h, na Associação Empresarial de Caçador (Acic), e deve reunir especialistas, representantes do setor produtivo e autoridades para debater possíveis mudanças regulatórias que podem afetar atividades econômicas estratégicas, como a silvicultura e a aquicultura.
Presidido pelo deputado federal Valdir Cobalchini, o encontro abordará a proposta em análise na Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), que discute a revisão da classificação de espécies consideradas exóticas invasoras no Brasil. Entre os exemplos mais sensíveis para a economia estão o pinus, o eucalipto e também a tilápia, espécie que sustenta boa parte da piscicultura nacional.
“Hoje existe uma proposta de redução dessas espécies, entre as quais estão o pinus e o eucalipto, em discussão na Comissão Nacional de Biodiversidade, a Conabio”, afirmou Cobalchini. Segundo ele, a proposta tem gerado dúvidas e apreensão principalmente em regiões onde a cadeia florestal tem forte peso econômico.
O seminário contará com a participação da pesquisadora da Embrapa Florestas, Yeda Maria Malheiros de Oliveira, que deve apresentar esclarecimentos técnicos sobre os critérios ambientais adotados na classificação dessas espécies.
“Nosso objetivo é promover um debate amplo, equilibrado e tecnicamente qualificado, que permita proteger o meio ambiente sem comprometer atividades produtivas fundamentais para a economia regional e nacional”, destacou o parlamentar.
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Tilápia entra no centro da preocupação do setor produtivo
Além da silvicultura, a possível inclusão da tilápia na lista de espécies exóticas invasoras tem mobilizado fortemente o setor aquícola brasileiro. A Conabio deve votar a proposta no próximo dia 27 de maio, e entidades do setor temem impactos severos sobre exportações, certificações internacionais e a imagem da aquicultura brasileira no exterior.
Segundo análise técnica da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), a medida pode provocar queda de até 90% nas exportações brasileiras da espécie em apenas seis meses. Hoje, cerca de 85% da tilápia exportada pelo Brasil tem como destino os Estados Unidos, movimentando aproximadamente US$ 35 milhões por ano.
O setor cita como precedente o caso da carpa asiática, classificada como invasora pelos Estados Unidos em 2010, o que teria provocado colapso nas exportações chinesas da espécie.
Além das perdas diretas estimadas em mais de US$ 38 milhões para a cadeia da tilápia, o estudo aponta possível efeito cascata sobre outras espécies produzidas no país, como tambaqui e pintado, elevando o impacto potencial para cerca de US$ 64 milhões anuais.
Governo afirma que classificação não significa proibição
Apesar da reação do setor produtivo, o Ministério do Meio Ambiente afirma que a eventual inclusão da tilápia na lista tem caráter técnico e preventivo, sem implicar proibição imediata do cultivo, entendimento também destacado em material recente sobre o tema .
Ainda assim, produtores argumentam que a classificação pode gerar barreiras comerciais, aumento de auditorias internacionais e ameaças a certificações ambientais importantes como BAP, ASC e Global G.A.P.
O debate em Caçador surge justamente nesse momento de tensão entre preservação ambiental e segurança econômica, em um cenário onde decisões regulatórias podem impactar cadeias produtivas inteiras em diferentes regiões do país.
Caiu no gosto pulular
A força da tilápia no Brasil vai muito além do gosto do consumidor e está diretamente ligada à eficiência produtiva da espécie. Originária da África, a tilápia se destaca por sua alta resistência a variações ambientais, rápido crescimento, facilidade de alimentação e adaptação a sistemas intensivos de criação. Essas características fizeram dela uma espécie altamente atrativa para a piscicultura industrial, permitindo produção em larga escala com custos mais competitivos que os de muitos peixes nativos.
Do lado do consumo, a tilápia conquistou espaço por atender ao perfil do brasileiro moderno, que busca praticidade e sabor mais suave. Com carne branca, poucas espinhas e versatilidade no preparo, o peixe se tornou presença constante em supermercados, restaurantes e no delivery, seja em filés, porções, pratos grelhados ou receitas rápidas. Essa combinação entre conveniência e preço ajudou a consolidar a espécie como protagonista no mercado nacional de pescados.
Apesar disso, o Brasil possui alternativas nativas com potencial comercial, como tambaqui, pintado, pacu e pirarucu. O desafio, porém, está na escala. Embora valorizados, esses peixes ainda enfrentam limitações de produção, custo e aceitação em determinados mercados, especialmente no exterior.
Isso mostra que uma eventual redução da dependência da tilápia exigiria não apenas substituição biológica, mas uma reestruturação completa da cadeia produtiva da aquicultura brasileira.
